Auto-retrato de Vivian Maier
Jeanne Bertrand
por Paula Baltazar
Vivian Maier
fotógrafa de rua que impressionou o mundo não usufruiu do sucesso em vida. Somente após sua morte em 2009, aos 83 anos, e depois que seus negativos foram descobertos por John Maloof, é que suas fotos passaram a ser consideradas um dos mais notáveis legados fotográficos do século XX.

​A obra de Vivian Dorothea Maier foi descoberta por acaso em uma feira de rua por John, corretor imobiliários que estava trabalhando em um livro sobre Chicago e precisava de materiais sobre a cidade. Ele, em uma breve olhada, arrematou por U$400 uma caixa cheia de livros de arte, recortes antigos de jornais, bugigangas e negativos. Durante mais de um ano não deu atenção para aquela caixa, mas quando iniciou as impressões dos negativos ficou impressionado com as fotos, e então começou a investigar sobre Vivian.

​Com o conteúdo encontrado na caixa, foi possível traçar uma linha de tempo e entender de onde vinham aquelas fotos tão singulares e impressionantes. Vivian também guardou correspondências suas e de outras pessoas, inclusive de seus antigos patrões. E assim foi possível encontrá-los e saber mais sobre a fotógrafa misteriosa.

​Nascida em Nova Iorque, Vivian passou a maior parte da adolescência na França com sua mãe, depois retornou às origens novaiorquinas onde refinou seu ofício artístico retratando as ruas e o cotidiano da cidade. Anos depois, foi morar em Chicago, onde passou a maior parte de sua vida trabalhando como babá em casas de família.

Extremamente reservada, ela não casou. Aos patrões, para os quais trabalhou mais tempo, pediu um quarto isolado com tranca e um banheiro privativo, o qual transformou em laboratório para suas revelações. No espaço isolado matinha seu segredo sobre a fotografia e sobre suas crenças liberais, e ainda guardava todo tipo de documento. 

​Definitivamente é uma história cheia de paradoxos. Uma artista excepcional que escondeu sua arte de todos. De origem humilde, sem família e amigos próximos e que morreu sem dinheiro e sem o reconhecimento do trabalho. Ela deixou tudo meticulosamente detalhado e documentado para ser simplesmente descoberto, ainda que sem a intenção, e sem a noção em vida, da dimensão do que sua obra representava.

​Decididamente não-materialista, Vivian gastava seu tempo livre e suas economias com rolos de filmes, câmeras e viagens. Sua sede por cultura levou-a ao Canadá, América do Sul, Europa, Oriente Médio, Ásia, Flórida e ilhas do Caribe, sempre viajando sozinha.

Em seus dias de folga, percorria as ruas fotografando e documentando tudo, retratando peculiaridades da vida urbana. Tinha um olhar genuíno pela espontaneidade das cenas de rua, pelas pessoas que faziam acontecer a composição de uma cidade, pela captura de olhares, reações, interações. Também havia um interesse em retratar crianças com adultos, muitas vezes com os olhos cheios de lágrimas, fazendo birra, pedindo algo e o aparente descaso dos pais. Daí talvez venha a grande influência de sua própria vivência e personalidade. Vivian era babá, vivia na casa de outras famílias que não a sua, e de seu pai não há notícias. Parece que Vivian, ao fotografar, guardar e catalogar tudo, gostaria de documentar a vida que não tivera, através da vida do outro.

Outra influência poderia ser de Jeanne Bertrand, uma retratista famosa e também de origem simples, que foi uma figura notável na vida de Vivian. Registros do Censo a listam como a chefe da família, vivendo junto com Vivian e sua mãe em 1930 nos Estados Unidos.

​Vivian tinha uma história interessante. Sua família estava completamente fora de cena de sua vida desde sempre, forçando-a a se tornar singular, assim como ela permaneceria para o resto de sua vida. 

No fim de sua vida, Vivian não tinha bens, nem havia guardado dinheiro. Uma das famílias para a qual trabalhou a ajudou alugando um pequeno apartamento para ela passar o resto de sua vida. No apartamento, não havia espaço para o acervo de documentos, livros, negativos e quinquilharias que havia guardado secretamente por toda a vida. Então ela alugou um espaço em um guarda-móveis, que mais tarde, por falta de pagamento, foi a leilão com todo o seu conteúdo, foi aí então que John arrematou a "história" da sua vida.

​Hoje, as obras de Vivian Maier, que valem milhões, podem ficar fora de circulação e passarem a valer muito mais para quem já as adquiriu. Há uma batalha judicial entre um advogado, que pretende encontrar um herdeiro mais próximo de Vivian, e John Maloof, que arrematou os negativos no leilão de rua e que vinha promovendo as obras em galerias. Além disso, John ajudou a dirigir o documentário Finding Vivian Maier, e a fazer um livro com suas fotos - Vivian Maier - Street Photography.

Influências de Vivian:
Jeanne Bertrand - retratista com a qual conviveu, e quem deve ter lhe ensinado a manusear uma câmera fotográfica.

Durante o tempo que mais trabalhou para uma única família - e onde permaneceu até as crianças tornarem-se adultas, ela fotografou nas ruas a espontaneidade, os olhares, as reações e as relações entre pais e filhos. Neste período teve oportunidade para se desenvolver artisticamente, investir em equipamentos e aprimorar-se com técnicas. Uma das famílias lhe deu um quarto e banheiro privativo, o qual funcionava como laboratório. Vivian era tão reservada que a família nunca soube do seu segredo com a fotografia. 

Ausência de estabilidade - depois que as crianças tornaram-se adultas, Vivian perdeu a estabilidade no emprego e trabalhava de casa em casa. Ela continuou fotografando as ruas e pessoas, mas com menor foco nas crianças.

Problemas financeiros - após um tempo, vem a instabilidade financeira, então passa a retratar o abstrato, anúncios, documentos, manchetes de jornais e também passou a ter uma obsessão por coisas que vinham do lixo e remetiam à escassez.

O documentário Finding Vivian Maier, não está ainda disponível no Netflix Brasil, apenas nos EUA, porém pode ser encontrado no Youtube em inglês. Parte de sua obra está no livro Vivian Maier - Street Photography.